Formação técnica precisará superar obstáculos para aumentar número de matrículas e ser consistente

Uma das grandes tendências em diversos sistemas de ensino mais bem avaliados do que o brasileiro, a educação profissional é uma das principais apostas da reforma do ensino médio aprovada pelo governo em fevereiro deste ano. Países como Noruega, Austrália, Polônia, Alemanha e Portugal registram taxas de matrícula na modalidade em torno de 50%, pouco mais, pouco menos, entre seus alunos do ensino secundário, contra algo entre 7% e 8% no Brasil, se consideradas apenas as matrículas da modalidade integrada ao ensino médio. A expansão da educação profissional é vista, então, como uma forma de atrair e reter os jovens estudando, propiciando, principalmente entre aqueles de baixa renda, um meio mais rápido para que se qualifiquem e tenham acesso facilitado ao mercado de trabalho. Uma vez que passem a ter renda, poderiam inclusive encontrar mais facilidade para continuar os estudos, seja numa graduação tecnológica ou no bacharelado tradicional.

Aceita de forma quase consensual, a estratégia,

no entanto, terá de enfrentar vários desafios para consolidar-se. Entre eles, a escassez de verbas para uma etapa cujos custos são mais altos que os do médio tradicional, a falta de docentes qualificados em número suficiente, as dúvidas sobre como se dará o processo de regulamentação no plano do Conselho Nacional de Educação e nos estados e a acomodação com as modalidades já existentes, entre outros. Além deles, há um aspecto menos tangível: o lugar que a educação profissional ocupa no imaginário dos jovens e de suas famílias, principalmente depois de, na última década, muitos dos alunos de classes C e D terem sido os primeiros integrantes em suas casas a conquistar diplomas de cursos superiores, símbolo de ascensão sociocultural.

Sob esse aspecto, há dados divergentes. Pesquisa feita em 2016 pelo Instituto Data Popular para o Semesp, sindicato das instituições de ensino superior privado, com 2.830 universitários das particulares, aponta para a valorização dos cursos de bacharelado: para 78% dos entrevistados, ser universitário é algo muito valorizado pelas famílias; 57% acreditam que somente com diploma de curso superior é possível conseguir bons empregos; 61% entraram nessa etapa para melhorar suas chances no mercado de trabalho.

Em outra pesquisa também de 2016, encomendada pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), 2.002 jovens entre os 13 e os 18 anos avaliaram positivamente o ensino técnico, dos quais 16,9% estavam fazendo algum curso da modalidade. Do total dos ouvidos, 7,6% qualificaram o ensino técnico como ótimo; 42,3% como bom; 29,1% como regular; 2,9% como ruim e 1,1% como péssimo. Entre os principais pontos positivos apontados estavam o começo na carreira profissional (24,7%), a boa aceitação no mercado de trabalho (21,6%) e o melhor preparo para o mercado, 16,5%. Em sétimo lugar, apareceu o fato de “ter um trabalho sem precisar de diploma de nível superior”, para 9,3%.